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O Bote

Postado em Divagações, Literatura com as tags , , , , em Janeiro 16, 2009 por Ms.Skywalker

Um conto de minha autoria, com algumas características de Clarice Lispector, como por exemplo a trnasgressão psicológica e o processo epifânico.

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O Bote

Cheiro de chuva entrava em suas narinas. Ela suspirava, contente, deitada em seu quarto a olhar para a janelas, cujas persianas de madeira, entreabertas, permitiam que a brisa vespertina entrasse, balançando suavemente a cortina.

Nem tão velha, nem tão jovem. Assim era como Beatriz referia-se à sua idade. Sorrindo, não sabendo o porquê, o barulho dos trovões ao longe, misturando-se com os cantos das aves e o longínquo cacarejar das galinhas, nas chácaras próximas, lhe traziam uma sensação de obliviamento dos problemas terrenos. Inexplicável.Beatriz gostava.Apenas.

Sentindo-se leve, sentindo-se humana,sentindo-se feliz, livre de todas as culpas, de todos os medos e anseios que tinha. Era como se ela fosse um gigante, que tudo vê, que tudo pode.

Aheitava-se no travesseiro; o vento trazia a chuva. Olhando da janela para o teto, do teto para a janela, Beatriz pensava, navegando nos véus de sua mente. Estes momentos eram os mais perigosos, onde a moça libertava-se das amarras do mundo terreno e rumava em liberdade para o desconhecido de seus sonhos que tanto a atraíam: era o que ela queria ser, ou era aquilo que ela não poderia ser?

Muitos sonhos, muitas probabilidades, muitas perspectivas e possibilidades. Sonhos malucos? Talvez. Porém, eram momentos perigosos como esses que davam à Beatriz uma singular sensação de felicidade e segurança. “Gosto de viver perigosamente”, dizia ela, em quase um sussurro para sí mesma. Tornava a olhar o teto.

Entretanto, como em uma tela que passa a ter um negro borrão tudo se transforma. Seu pequeno bote em que navegava, afunda nas profundezas de sua mente; entrava em conflito. Por isso, o perigo. Afinal, quem é considerado normal? Aquele que faz o que sonha, ou aquele que faz o que deve fazer?

Vulnerável, desprotegida. Beatriz sente-se despencando de um abismo: um abismo sem fim. Caindo, pequenininha, insegura. Com medo.

A chuva já caía a cântaros, e um trovão ribombante a faz despertar de seus pensamentos surreais. Como um raio, ela se levanta indo à janela, fechando as persianas que já faziam as cortinas balançarem violentamente, assim como a própria Beatriz. Estava numa tormenta, a calmaria que a precedia já se fora.

“Talvez seja hora de reparar os danos…”, pensava. “Não, acho melhor ir dormir agora”. E assim ela volta a se deitar sobre a colcha, não fazendo questão de demorar muito para pegar no sono. Ambiente escuro, ainda chovia. O barulho das gotas eram agora os únicos barulhos que ecoavam na mente da moça, na tentativa de levar tudo aquilo que outrora pôs em xeque a sua própria existência.

Poeta X Poesia

Postado em Literatura com as tags , , , , , em Outubro 5, 2008 por Ms.Skywalker

Poeta versus Poesia

O que seria de nós se vivêssemos apenas o presente,sem memória?Há um velho ditado que diz que “as lembranças são o que nos definem”.E é isso que Miguel Sanches Neto diz à pergunta do jornalista carioca Rodrigo de Souza Leão,do site “Jornal da Poesia”: “Nós (escritores) somos os guardiões do fogo.Mantemos vivo todo um Universo imaginário que periga perecer.Sem os escritores,o mundo corre o risco de viver apenas o presente.”

Como diz o Artigo Décimo-Quarto do Estatuto Social do Poeta: “Aos poetas serão abertas todas as portas,até as invisíveis aos olhos vesgos e comuns dos mortais anônimos,serão abertos todos os olhos,todas as almas,todos os caminhos,todas as chamas,todos os cântaros de lágrimas e desejos,todos os segredos dessa dimensão ou fora dela,num espelho de matizes,feito insofrência do desmundo.”

Isto podemos claramente perceber no poema de Cecília Meireles,uma poetisa contemporânea que,em Canção Mínima,como o próprio nome já diz,descreve com simplicidade,e rapidamente,uma viagem pelo espaço-tempo,onde, em uma gradação descendente,somos levados,em uma fração de segundos,do Espaço ao jardim de uma casa qualquer,pousando sobre as asas de uma borboleta.Desta forma temos uma sensação de calma,tranqüilidade,um certo êxtase.É como se,realmente, nossos olhos se abrissem, ficassem mais límpidos, permitindo assim a visão do essencial,que, como dizia Saint-Exupère: “O essencial é invisível para os olhos.”

Um dos melhores modos de sentir,ou tentar sentir, a idéia bruta do poeta é recriando sua obra de uma outra maneira artística.No caso, com a colagem há a possibilidade de colocarmos no papel todas as sensações,por meio das cores e deseho criado.

Ainda citando o Estatuto do Poeta,este, o escritor, como cita o Artigo Décimo-Primeiro: “Poeta poderá andar vestido como quiser,lutar contra as misérias e mentiras do cotidiano,sempre buscando pela paz social,ou ainda ‘mamando’ na utopia de uma justiça ético-plural-comunitária.Poeta gosta mesmo de humanismo de resultados [...]“

O papel de um poeta é se expressar,não importa o assunto,não importa a época.Expressem-se professores, operários, jardineiros, donos de bares, mecânicos.Poeta só não pode ser passional,frio ou insensível e nem interesseiro.Poeta escreve torto por linhas tortas.O poeta,afinal, é um “sentidor” com sua angústia-vivere,como assim diz o Artigo Décimo-Segundo do Estatuto do Poeta.Todo mundo pensa,mesmo quando calado.É preciso que alguém se manifeste,mesmo que a crítica não seja tão favorável…

Haikai

Postado em Divagações, Literatura, Uncategorized com as tags em Setembro 24, 2008 por Ms.Skywalker

Um coração pulsava

Suspiros longos

Pensamentos distantes.

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O fruto da cerejeira

vermelho como seus lábios

da cor da paixão

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O brilho do olhar

Sorrisos doces

Perfume nos cabelos

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Ela rodopiava pelo salão

Assim como as folhas do outono

caem no chão

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O barulho das ondas do mar

Ecoavam nas conchas

Nas areias brilhantes e quentes

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Seis conchinhas no verde-mar

Sendo banhadas

pela luz do luar.

Correndo contra o Tempo..Talvez.

Postado em Asneiras, Divagações, Literatura com as tags em Setembro 24, 2008 por Ms.Skywalker

Em contrastes do Porvir

Cansei de dar risos forçados

Cansei de viver arrastado

Agora canto com profeciência

Os males desta sobrevivência

Quero respirar sem dor

Com vigor voltar a sorri

Para o seu amor

Quero poder pensar sem loucura

Apenas amar no delírio de seu afago

Oh Doçúra!Oh Doce ternura.

Mago que me enfeitiçastes

Após tanto penar,se não em seus braços ficar

Desejaria nunca ter te conhecido

Pois com este ocorrido,nunca saberia o que é amar.

Estatuto do Poeta

Postado em Literatura com as tags , , , , , em Setembro 18, 2008 por Ms.Skywalker

Terráqueos :)

Foi devido uma pesquisa que me deparei com o Estatuto do Poeta,até então pouco conhecido por mim.Achei interessante colocá-lo aqui,junto com o  link.Foi um tanto quanto oportuno a aparição deste Estatuto ao meu conhecimento,pois serviu para que eu tirasse dúvidas pessoas,que estavam me martelando à um bom tempo,rs.

Nós,poetas,escritos,malucos..Cada um com sua mania.

Boa leitura.

Estatuto do Poeta

Primeiro Rascunho Para um Esboço de Projeto Amplo, Total e Irrestrito –

Silas Corrêa Leite)

Artigo Um

Todo Poeta tem direito de ser feliz para sempre, mesmo até muito além do para sempre, ou quando eventualmente o “para sempre” tenha algum fim.

Artigo Dois

Todo Poeta poderá dividir sua loucura, paixão e sensibilidade com mil amores, pois a todos realmente amará com o mesmo prelúdio nos olhos, algumas asas nas algibeiras e muitas cítaras encantadas na alma, ainda assim, sem lenço e sem documento.

Parágrafo Único

Nenhum Poeta poderá ser traído, a não ser para que a pobre ex-Musa seja infeliz para todo o resto dos dias que lhe caibam na tábua de carne desse Planeta Água.

Artigo Três

Nenhum Poeta padecerá de fome, de tristeza ou de solidão, até porque a tristeza é a identidade do Poeta, a solidão a sua Pátria, sendo que, a fome pode muito bem ser substituída num abismo terminal por rifle ou cianureto. E depois, um poeta não precisa de solidão para ser sozinho. É sozinho de si mesmo, pela própria natureza, com seus encantários, santerias, ninhais, mundo-sombra e baladas de incêndio.

Artigo Quatro

A Mãe do Poeta será o magno santuário terreal de seus dias de lutas e sonhos contra moinhos e erranças de gracezas e iluminuras.

Filho de Poeta será como caule ao vento, cálice de liturgia, enchente em rio: deverá adaptar-se ao Pai chamado de louco por falta de lucidez de comuns mortais ou velado elogio em tácita inveja espúria.

Artigo Quinto

Nenhum Poeta será maior que seu país, nenhuma fronteira ou divisa haverá para o Poeta, pois sua bandeira de luz-cor será a justiça social, pão, vinho, maná, leite e mel, além de pétalas e salmos aos que passaram em brancas nuvens pela vida. E depois, uns são, uns não, uns vão, uns hão, uns grão, uns drão – e ainda existem outros.

Artigo Sexto

A todo Poeta será dado pão, cerveja, amante e paixão impossível, o que naturalmente o sustentará mental e fisiológicamente em tempos tenebrosos ou de vacas magras, de muito ouro e pouco pão.

Artigo Sétimo

Nenhum Poeta será preso, pois sempre existirá, se defenderá e escreverá em legítima defesa da honra da Legião Estrangeira do Abandono, à qual se sabe pertencer, com seu butim de acontecências, ou seu não-lugar de, criando, Ser, estar, permanecer, continuar, feito uma letargia, um onirismo, uma catarse, ou um surto psicótico que os anjos chamam alumbramento terçã.

Artigo Oitavo

A infinital solidão do espaço sempre atrairá os Poetas.

Artigo Nono

Caso o Poeta “viaje fora do combinado”, tome licor de ausência ou vá morar no sol, nunca será pranteado o suficiente, nem lhe colocarão tulipas de néon, dálias aurorais, estrelícias de leite ou dente-de-leão sob o corpo que combateu o bom combate. Será servido às carpideiras, amigos, parentes, anjonautas e guardiões, vinho de boa safra por atacado, cerveja preta mais bolinhos de arroz, pão de minuto e cuque de fubá salgado.

Artigo Décimo

Poeta não precisará mais do que o radar de seus olhos, as suas mãos de artesão sensorial no traquejo do cinzel interior, criativo, mais sua aura abençoada e seu halo com tintas de luz timbral para despojar polimentos íntimos em verso e prosa, como pertencimentos-quireras, questionários e renúncias.

Artigo Décimo-Primeiro

Poeta poderá andar vestido como quiser, lutar contra as misérias e mentiras do cotidiano (riquezas impunes, lucros injustos, propriedades roubos), sempre buscando pela paz social, ou ainda mamando na utopia de uma justiça ético-plural-comunitária. Quem gosta de revolução de boteco é janota boçal metido a erudição alcoólica e pseudo-intelectual seboso e burguês. Poeta gosta mesmo de humanismo de resultados. De pegar no breu. A luta continua! Saravá, Brecht!

Artigo Décimo-Segundo

Poeta pode ser Professor, Torneiro-Mecânico, Operário, Ourives, Jardineiro, Fabricante de Bonecas, Vigia-Noturno, Engolidor de Fogo, Entregador de Raposas, Dono de Bar ou Encantador de Freiras Indecisas. Poeta só não poderá ser passional, insensível, frio ou interesseiro. Ao poeta cabe apenas o favo de Criar. O poeta escreve torto por linhas tortas (um gauche), poesilhas (poesia rueira e descalça) e ficção-angústia. Escreve (despoja-se) para não ficar louco…para livrar do que sente. O Poeta, afinal, é um “Sentidor” com sua angústia-vívere

Artigo Décimo-Terceiro

Se algum Poeta for acusado levianamente de alguma eventual infração ou crime, a dúvida o livrará de ser apenado. E se o Poeta dizer-se inocente isso superará palavras acima de todos e sua fala será sentença e lei sagracial. A ótica do Poeta está acima de qualquer suspeita, e ele sempre é de per-si mesmo o local do crime da viagem de existir. Mas pode colaborar com as autoridades, cometendo um crime perfeito. Afinal, só os imbecis são felizes.

Parágrafo Único

Poeta não erra. Refaz percursos. Poeta não mente. Inventa o inexistente, traduz o impossível, delata o devir. Poeta não morre. Estréia no céu. Poeta padece fibra por fibra no ser-se de si mesmo

Artigo Décimo-Quarto

Aos Poetas serão abertas todas as portas, até as invisíveis aos olhos vesgos e comuns dos mortais anônimos, serão abertos todos os olhos, todas as almas, todos os caminhos, todas as chamas, todos os cântaros de lágrimas e desejos, todos os segredos dessa dimensão ou fora dela, num desespelho de matizes, feito insofrência do desmundo.

Artigo Décimo-Quinto

A primeira flor da primeira aurora de cada dia novo, será declarada de propriedade do Poeta da rua, do bairro, do país ou de qualquer próximo Poeta a confeitar como louco, como ermitão ou pioneiro, de vanguarda. Em caso de naufrágio ou incêndio, poetas e grávidas primeiro

Artigo Décimo-Sexto

Não existe Poeta moderno, clássico, quadrado, matemático como pelotão de isolamento, ou só aleijado por dentro, pois as flores e os rios não nascem nunca iguais aos outros, sósias, nem os poemas são tijolos formais de reboques arcaicos. Nenhum Poeta poderá produzir só por estética, rima ou lucro fóssil. Poesia não é para ser vendida, mas para ser dada de graça. Um troco, um soneto, uma gorjeta, um haikai, um fiado pago, uns versos brancos, um salário do pecado, um mantra-banzo-blues-lundu. E todo alumbramento é uma meia viagem pra Pasárgada.

Poeta é tudo a mesma coisa, com maior ou menor grau de sofrimento e lições de sabedoria dessas sofrências, portanto, com carga maior ou menor de visão, lucidez, sensoriedade canalizada entre o emocional e o racional, de acordo com a sua bagagem, seu vivenciar, seu prisma existencialista de bon vivant por atacado. Poeta há entre os que pensam e os que pensam que pensam. Entre os que são e os que pensam que são, pois se parecem. A todos é dado a estrada de tijolos amarelos para a empreita de uma caminhada que o madurará paulatinamente. Ou não. Todo poeta é aprendiz de si mesmo, em busca de uma pegada íntima, e escreve para oxigenar a alma. Afinal, são todos sementes, e sabem que precisam ser flores e frutos, para recriarem, para sempre, a eterna primavera cósmica.

Todo aquele que se disser Poeta, assim o será, ou assim haverá de ser

Parágrafo Um

O verdadeiro Poeta não acredita em Arte que não seja Libertação. Saravá, Manuel Bandeira!

Parágrafo Dois

Poeta bebe porque é líquido. Se fosse sólido comia.

Parágrafo Três

Poeta é como a cana. Mesmo cortado, ralado, amassado, ao ser posto na moenda dos dias, ainda assim tem que dar açúcar-poesia

Inciso Um

Poeta também bebe para tornar as pessoas mais interessantes.

Parágrafo quatro

Poeta não viaja. Poeta bebe. E todo Poeta sabe que o fígado faz mal à bebida.

Artigo Décimo-Sétimo

Poeta terá que ser rueiro como pétala de cristal sacro, frequentador de barzinhos como anjo notívago, freguês de saunas mistas como recolhedor de essências, plantador de trigais amarelos como iluminador de cenários, cevador de canteiros entre casebres de bosquíanos, entre o arado e a estrela, um arauto pós-moderno como declamador de salmos contemporâneos entre extraterrestres.

Parágrafo Único

Poeta rico deverá ainda mais amar o próximo como se a si mesmo, ajudando os fracos e oprimidos, os Sem Terra, Sem Teto, Sem Amor, para então se restar bem-aventurado e poder escrever cânticos sobre a condição humana no livro da vida. Poeta é antena da época. E o neoholocausto do liberalismo globalizador é o câncer que ergue e destrói coisas belas.

Artigo Décimo-Oitavo

A todo Poeta andarilho e peregrino como Cristo, São Francisco ou Gandhi, será dado seu quinhão de afeto, sua porção de Lar, seu travesseiro de pétalas de luz. Quem negar candeia, azeite e abrigo ao Poeta, nunca terá paz por séculos de gerações seguintes abandonadas entre o abismo e a ponte para a Terra do Nunca. Quem abrigar um Poeta, ganhará mais um anjo-da-guarda no coração do clã que então será abençoado até os fins dos tempos.

Parágrafo único

O sábio discute sabedoria com um outro sábio. Com um humilde o sábio aprende.

Artigo Décimo-Nono

Poeta poderá andar vestido como quiser, com chapéus de nuvens, pés de estrelas binárias ou mantras de ninhos de borboletas. Nenhum Poeta será criticado por fazer-se de louco pois os loucos herdarão a terra e são enviados dos deuses. “Deus deve amar os loucos/Criou-os tão poucos…” – Um Poeta poderá também andar nu, pois assim viemos e assim nos moldamos ao barro-olaria de nosso eio-Éden chamado Planeta Água. E a estética para o poeta não significa muito, somente o conteúdo é essência infinital.

Artigo Vigésimo

Poeta gosta de luxo também, mas deve lutar por uma paz social, sabendo a real grandeza bela de ser simples como vôo de pássaro, simples como pouso em hangar fantástico, simples como beira de rio ou vão de cerca de tabuínha verde. Só há pureza no simples.

Artigo Vigésimo-Primeiro

Nenhum Poeta, em tempo algum, por qualquer motivo deverá ser convocado para qualquer batalha, luta ou guerra. Mas poderá fazer revoluções sem violência. Poderá também ser solicitado para ser arauto da paz, enfermeiro de varizes da alma ou envernizador de cicatrizes no coração, oferecendo, confidente e solidário, um ombro amigo, um abraço de ternura, um adeus escondido feito recolhedor de aprendizados ou visitador de bençãos, ou até ser circunstancialmente um rascunhador clandestino de alguma ridícula carta de suicida por paixão impossível.

Artigo Vigésimo-Segundo

Mentira para o Poeta significa cruz certa. Aliás, poeta na verdade nunca mente, só inventa verdades tecnicamente inteiras e filosoficamente sistêmicas…

Artigo Vigésimo-Terceiro

Musa-Vítima do Poeta será enfermeira, psicóloga, amante, mulher-bandeira, berço esplêndido, Santa. Terá que ser acima de todas as convenções formais, pau para toda obra. No amor e na dor, na alegria e na tristeza, até num possível pacto de morte.

Artigo Vigésimo-Quarto

Poeta não paga pensão alimentícia. Ou se está com ele ou contra ele. Filhotes sobreviventes de uma relação qualquer, ficarão sob sua guarda direta e imediata. Ex-Mulheres serão para sempre águas passadas que não movem moinhos, como velas ao vento de uma Nau Catarineta qualquer, como exercícios de abstrações entre cismas, ou como aprendizados de dezelos íntimos de quem procura calma para se coçar.

Artigo Vigésimo-Quinto

Revogam-se todas as disposições em contrário, CUMPRA-SE – DIVULGUE-SE!

Itararé, São Paulo, Brasil, Cinzas, 1998, Lua Cheia – Do jazz nasce a luz!

(Texto traduzido para o espanhol pelo Poeta Dr. Antonio Everardo Glez, de Durango, México) –

Fonte – www.casadacultura.org/

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A alienação do conceito poético

Postado em Literatura, Sociologia com as tags , , , , , , , , , , , , em Julho 13, 2008 por Ms.Skywalker

A alienação do conceito poético

Temos por poeta a definição popular daquele ser que é sensível,de imaginação inspirada ou sonhadora.De acordo com essa definição,agregamos ao nosso pensamento que: “ser poeta é ser desocupado”,fato este que causa uma certa depreciação da profissão,quiçá do seu conteúdo.Foi-se o tempo em que a poesia tinha o devido reconhecimento dentre a sociedade,nos grandes salões,até na boca do povo…

Desde os tempos mais remotos,desde a Antiguidade,onde o homem alcançou a escrita,este vem descrevendo,fazendo registro de fatos do cotidiano,ou fatos que até ficaram marcados na história.Com o tempo,essas técnicas de “transcrição do visual” foram aprimoradas e eis que o Homo Sapiens Sapiens percebe que ele era capaz de ir mais além: desde a crítica à imaginação.Surgem,assim,os poetas e os escritores.Falaremos brevemente do primeiro.

Assim como os escritores,os poetas são os guardiões do fogo,mantendo vivo todo um universo imaginário que periga perecer.Entretanto,o papel do poeta é como o de qualquer cidadão.São responsáveis e participam de tudo o que acontece.Tem o direito de voz,direito da crítica,direito da opinião.”Todos opinam,mesmo quando calados”,como dizia Lau Siqueira.

Como todos, os poetas da atualidade estão lutando contra injustiças,contra a desigualdade social,contra todos os fatores transformadores de uma sociedade corrupta e cega.E sendo assim,os poetas se expressam pela literatura,protestando,informando,criticando,ensinando.Não é necessário haver poemas com regras e nem dicções líricas.Simplesmente os criam.

Talvez,seja por esta sensibilidade que os poetas têm de ver e analisar o mundo que os cerca,é que os deixam com a fama de “desocupados”.Ledo engano.É através da poesia,através da arte que nossos instintos são despertados,tirando-nos das amarras e viseiras impostas pelo meio em que vivemos.

Particularmente,penso que para este impasse ser resolvido,a sociedade jovem deveria ser moldada para receber de braços abertos este tipo de expressão,de arte.Com incentivo,principalmente dos mestres,estes responsáveis pela formação acadêmica e cultural dos pequenos pupilos.Só assim,implantando a semente desde a tenra idade,é que conseguiremos desalienar a população para com sua visão sobre a arte/poetas.

Nota de Falecimento…

Postado em Divagações, Literatura com as tags em Junho 17, 2008 por Ms.Skywalker

É…mais um dia de frio,muito frio.Maldita falta de atenção a minha.Errei uma questão que valia 5 pontos na prova de Física…Ahh…(sem comentários – -‘).Mas também,essa falta de atenção já vem de tempos…
Pois bem,estava eu vagando(literalmente) pela rua,fazendo meu trajeto,cabisbaixa,pensativa…A gente fica sabendo de cada coisa né?A mãe de um garoto(que não conheço,porém também faz parte do ‘centro de relacionamentos sacro-estudantis’) se suicidou.:|Continuei andando e de repente vejo a cena,nada agradável,de dois cachorros brigando o que resultou na quase morte do mais fraco,que felizmente foi salvo pela intervenção de uma boa alma humana…Logo depois,continuando a breve caminhada,passo perto de um grupinho de pessoas,conversando sobre as fatalidades do dia(fofocas,porém..) e uma delas disse: “Nossa,aqui não pode ouvir que morreu um que logo em seguida morre mais quatro…”(pior que é bem assim mesmo)

O que quero dizer com tudo isto?TODO MUNDO ESTÁ MORRENDO!Não digo de morte física,mas morte espiritual,morte mental,cultural,emocional..Tudo,tudo,tudo.
Perde-se a vontade,perde-se o sonho,perde-se a esperança,perde-se assim a vida.

Hoje eu não estou legal para escrever,tenho idéias mas elas fogem ao meu senso da escrita.Hoje minhas idéias preferem ficar somente na imaginação,reproduzindo-se…Em breve falarei sobre isto…

Aqui se segue um texto,de minha autoria,que fiz para um trabalho..
Ele define muito bem como eu estou ultimamente por dentro…

Abraços.
“Green eyes…Sinto sua falta…”

O Homem

E lá estava ele.Sentado,na relva,a beira do penhasco,banhado pela luz do luar que caia por entre as nuvens.A noite estava muda,ouvia-se apenas o barulho das vagas cascalhando nos rochedos.A brisa brincava entre as folhagens,carregando os aromas noturnos que variavam com o odor marítimo.Uma garrafa vazia,um cigarro.Nada mais acompanhava o solitário homem naquela noite.
Cabelos semi-agrisalhados,barba por fazer,roupas rotas.Não cheirava mal: o odor era entorpecido pelo vinho derramado em sua camisa semi-desabotoada…Por alguns instantes seu olhar ficava perdido por entre a vasta escuridão a sua frente.Uma luz ao fundo.Acendia e desaparecia,tornando-se a repetir continuamente.
__”O que seria aquilo,um farol?Ou a chama da vida que se extingue e logo volta,num ato incessante?!”-O homem dizia para si mesmo em um breve devaneio,com a voz em um tom rouco e cambaleante.
A lua sumira-se no céu,a noite ia cada vez mais alta.Frio,muito frio: a chuva caía as gotas pesadas.Com o cigarro outrora aceso largado entre os lábios frouxos o homem ria.Ria de um rir convulso.Insano.Pegando o fumo,já encharcado pela chuva,atira-o a sua frente,lançando-o por entre o penhasco.Deitara na grama,num ímpeto.Sua risada era rouca,doentia.Talvez estivesse ébrio pelo vinho que bebera a pouco,não se sabe.Deitado na relva cipestre,úmida,sentindo nas faces caírem grossas lágrimas de água,que embebia seus cabelos e suas roupas.Fechara os olhos,embarcando naquele doce devaneio das vagas chocando-se violentamente contra os rochedos abaixo do penhasco e a adorável música da chuva ao seu redor,cantarolando uma canção assim como o marujo que afunda com sua embarcação…

Não fazia muitos tempo,que, esse mesmo homem,cujas cóleras da vida agrisalharam-lhe os cabelos,vinha aqui,neste mesmo local em noites mornas.Ele era apenas um jovem naquele tempo.Um jovem,que,tomado pela esperança e o amor,sentava-se ali mesmo e escrevia fervorosamente,agraciado pelas estrelas,poemas,cartas de delírios que arranhavam-lhe por entre os dedos.Imaturas,tolas de um devasso e completo apaixonado para sua musa,que,despertava nele os mais loucos desejos,anseios e questionamentos como ninguém havia feito até então.O despertar para a vida…

Desmaiara rindo,tomado pela febre que entorpecia seus sentidos e dilacerava seus órgãos. Em delírio,arfava rouquidamente e,em ilusão,a face da amada vindo ao seu encontro.A bela musa ,somente recoberta por um branco manto,pairava entre a relva úmida indo em direção ao homem e deitando sobre o mesmo,cuidando de todas suas feridas.Eles se amaram sobre a chuva como nunca haviam feito antes.Longas e tortuosas horas…Um gozo misturado a um urro,seguido de uma risada infame:a ilusão desaparecia voltando a ser apenas um cadáver recoberto pela mortalha.Abraçado a garrafa vazia,ele ficara em silêncio.Eis a única coisa que lhe restara desse mundo: a dor,a solidão e as lembranças.Preferia morrer ao continuar louco por perceber que nada mais lhe restava nessa vida.Assim como veio,acabou.Aquela figura que havia lhe acendido a tocha fugaz da esperança nunca passou de um devaneio.Estava morta,pálida em seu sombrio sepulcro que era adornado,graciosamente por figuras sacras.
Para ele não havia mais o que se fazer.Ele não queria.Em meio as cruzes que se erguiam dentre a relva umedecida em prantos,o homem se encontrava.Paralisado,moribundo.O mesmo homem que outrora saboreou todas os atos aprazíveis da vida,todos os mais insanos sonhos e desejos e que posteriormente experimentou todas as amarguras do inferno,encontrava agora seu santo e final descanso,purificado pela chuva,que lavava todos seus pecados e embalado pela doce e amarga sinfonia.
Era jovem,não passava dos 30 anos.