Um conto de minha autoria, com algumas características de Clarice Lispector, como por exemplo a trnasgressão psicológica e o processo epifânico.
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O Bote
Cheiro de chuva entrava em suas narinas. Ela suspirava, contente, deitada em seu quarto a olhar para a janelas, cujas persianas de madeira, entreabertas, permitiam que a brisa vespertina entrasse, balançando suavemente a cortina.
Nem tão velha, nem tão jovem. Assim era como Beatriz referia-se à sua idade. Sorrindo, não sabendo o porquê, o barulho dos trovões ao longe, misturando-se com os cantos das aves e o longínquo cacarejar das galinhas, nas chácaras próximas, lhe traziam uma sensação de obliviamento dos problemas terrenos. Inexplicável.Beatriz gostava.Apenas.
Sentindo-se leve, sentindo-se humana,sentindo-se feliz, livre de todas as culpas, de todos os medos e anseios que tinha. Era como se ela fosse um gigante, que tudo vê, que tudo pode.
Aheitava-se no travesseiro; o vento trazia a chuva. Olhando da janela para o teto, do teto para a janela, Beatriz pensava, navegando nos véus de sua mente. Estes momentos eram os mais perigosos, onde a moça libertava-se das amarras do mundo terreno e rumava em liberdade para o desconhecido de seus sonhos que tanto a atraíam: era o que ela queria ser, ou era aquilo que ela não poderia ser?
Muitos sonhos, muitas probabilidades, muitas perspectivas e possibilidades. Sonhos malucos? Talvez. Porém, eram momentos perigosos como esses que davam à Beatriz uma singular sensação de felicidade e segurança. “Gosto de viver perigosamente”, dizia ela, em quase um sussurro para sí mesma. Tornava a olhar o teto.
Entretanto, como em uma tela que passa a ter um negro borrão tudo se transforma. Seu pequeno bote em que navegava, afunda nas profundezas de sua mente; entrava em conflito. Por isso, o perigo. Afinal, quem é considerado normal? Aquele que faz o que sonha, ou aquele que faz o que deve fazer?
Vulnerável, desprotegida. Beatriz sente-se despencando de um abismo: um abismo sem fim. Caindo, pequenininha, insegura. Com medo.
A chuva já caía a cântaros, e um trovão ribombante a faz despertar de seus pensamentos surreais. Como um raio, ela se levanta indo à janela, fechando as persianas que já faziam as cortinas balançarem violentamente, assim como a própria Beatriz. Estava numa tormenta, a calmaria que a precedia já se fora.
“Talvez seja hora de reparar os danos…”, pensava. “Não, acho melhor ir dormir agora”. E assim ela volta a se deitar sobre a colcha, não fazendo questão de demorar muito para pegar no sono. Ambiente escuro, ainda chovia. O barulho das gotas eram agora os únicos barulhos que ecoavam na mente da moça, na tentativa de levar tudo aquilo que outrora pôs em xeque a sua própria existência.